Durante quatro anos, quer estivesse, sol ou chuva, frio ou calor, eu e os meus colegas, fazíamos o percurso entre Marcelim e Vila Viçosa, por entre pedras e tojos, mas sempre com um sorriso e com muita alegria. Imaginávamos como seria tudo muito mais fácil, se existisse uma ponte ou um tapete rolante a ligar as duas aldeias. Fantasias de criança, que preenchiam parte da nossa caminhada e do nosso pensamento. Não sabíamos o que era um computador e muito menos se ouvia falar de internet.
As nossas brincadeiras, eram certamente muito mais saudáveis, apesar de os nomes não serem tão pomposos, como hoje em dia, em que se joga/fala de playstaion, ou Pc. Onde há uma infinidade de jogos tipo PES, Football Manager ou outros. Naquela altura brincávamos com o que o tínhamos. E o que tínhamos era quase sempre o mesmo, mas isso não nos incomodava. Ora jogávamos futebol, ora às escondidas… havia ainda os Cowboys, a apanhadinha, a macaca, os polícias e ladrões…. E que felicidade que estas brincadeiras nos davam. Ninguém era obeso, nem se conhecia essa palavra.
Nas férias, íamos ajudar os nossos pais nos trabalhos do campo. Se fosse hoje diziam que era trabalho infantil. Naquela altura adorávamos e conseguíamos ajudar a produzir o nosso sustento, ainda que o nosso trabalho fosse mínimo. Eu gostava tanto dos trabalhos e de andar a guardar os animais, que me lembro perfeitamente no final da 1ª classe, o meu professor (Prof. Armando), se ter deslocado a casa dos meus pais para lhes pedir autorização para eu frequentar uma colónia deferias na praia. Depois de ele explicar as vantagens que eu teria em participar, eles algo renitentes acabaram por autorizar, mas quando me perguntaram se queria ir, a minha resposta foi. “Prefiro ficar cá para ir com as vacas”.
O campo era o meu habitat natural e preferido e com 6 anos ainda não estava preparado para sair de casa J
Hoje seguramente ninguém teria uma decisão semelhante à minha. Qualquer criança preferiria a praia aos trabalhos do campo.
Na minha aldeia de Marcelim, vivíamos várias crianças… humildes mas felizes.
Talvez tenham sido esses caminhos difíceis que percorremos para nos levar até à escola que nos deram muitos ensinamentos para as nossas vidas actuais. Foi neles que aprendemos que nada se consegue sem dificuldade, foi neles que aprendemos a saber ajudar o outro quando está mais cansado; foi neles que tivemos o inicio da nossa vida de estudo e trabalho.
Hoje em dia frequentemente se fala em crise e em dificuldades, eu sou capaz de afirmar que todos aqueles que percorrem estes ou outros caminhos semelhantes desde tenra idade, hoje tem mais capacidade para encontrar soluções que lhes permitam superar a crise e as dificuldades que se lhe vão deparando.
Quero agradecer a todos os colegas de Marcelim e das outras aldeias, que comigo partilharam as cadeiras da Escola de Vila Viçosa, pelos bons e pelos menos bons momentos que lá passamos, e por aquilo que lá aprendemos….
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