Aos 5 anos fui para a escola. Sim com 5 anos, pois na altura, ao contrário do que vai acontecendo actualmente, todos aqueles que fizessem 6 anos até 31 de Dezembro podiam entrar para Escola primária nesse ano lectivo.
Na aldeia onde vivia, Marcelim, não tínhamos escola. Depois de vários anos em que os habitantes desta linda aldeia, calcorrearam caminhos tenebrosos, desde Marcelim, até Vila de Muros, eu e outros mais, tivemos a felicidade de poder ir para escola de Vila Viçosa. Digo felicidade, porque além de ser mais perto, os caminhos, apesar de ruins, eram bastante melhores.
Durante vários anos, os habitantes de Marcelim, que pretendiam ir à Escola, tinham de se deslocar para Vila de Muros. Vila de Muros, para aqueles que não conhecem, é uma aldeia da freguesia de Tendais (freguesia a que também pertence a aldeia de Marcelim), situada na Zona Ribeirinha desta mesma freguesia, enquanto Marcelim se situa na zona mais alta.
As deslocações eram feitas em caminhos utilizados para trabalhos agrícolas, e que na altura eram o único meio de comunicação e ligação entre estas aldeias. Estradas, fossem elas em terra batida, ou em alcatrão, eram apenas imaginação dos habitantes. Se de Verão era difícil fazer estes caminhos, devido ao intenso calor, no Inverno era mais complicado, pois os Invernos são muitos rigorosos, com chuva, vento e por vezes neve.
No ano lectivo de 1980/1981, a Anabela Francisco foi a primeira aluna de Marcelim a ir para Escola de Vila Viçosa. No entanto para que isto acontecesse, foi necessário o Senhor Epifânio, pai da Anabela, pedir autorização ao Delegado Escolar para efectuar a matrícula em Vila Viçosa, pois a freguesia era diferente.
Vila Viçosa, pese embora a proximidade com Marcelim, pertence á Freguesia de Cinfães.
Neste ano a Anabela era a única aluna de Marcelim a frequentar a escola de Vila Viçosa, e o percurso casa/escola e escola/casa era feito na companhia do seu irmão Antonino que lhe fazia companhia. De facto uma menina com 6 anos caminhar sozinha pelo meio da serra, não será muito agradável, se bem naquela altura não havia os mesmos problemas de hoje em dia.
Nesta altura havia ainda um grupo de alunos de Marcelim, que fazia o percurso para a Escola de Vila de Muros, e então a Anabela e o Antonino apanhavam “boleia” deles até ao Grandinho.
Grandinho, é uma pequena localidade, onde hoje já não reside ninguém, que fica na fronteira da freguesia de Tendais, com a Freguesia de Cinfães.
A partir do ano lectivo 1980/1981 passaram então os meninos e meninas de Marcelim a frequentar a Escola de Vila Viçosa.
No ano lectivo de 1985/1986 chegou então a minha vez de ir para a Escola. Na altura as aulas na escola de Vila Viçosa estavam dividas em dois períodos distintos. No período da manha, tinham aulas os alunos da 1ª e 2ª classe( actualmente 1º e 2º ano) e da parte de tarde os alunos da 3ª e 4ª classe (actualmente 3º e 4º ano). Nesse ano Marcelim “enviou” para a escola pela primeira vez, eu mesmo e o Paulo, filho da Sra. Maria e do Sr. Américo, já falecido. Transitavam já do ano anterior a minha prima Cristina e a Ana Maria – que já andavam na segunda classe. Além delas praticamente não conhecíamos mais ninguém na escola, mas isso não foi problema, pois na altura não se falava em “bullings” ou coisas do género, e além do mais os restantes colegas, tal como nós, eram filhos de gente humilde, com os mesmos problemas e limitações que nós.
Espero não me esquecer aqui de nenhum deles. Recordo-me que na 1ª classe andava eu, o Paulo, o Horácio, cuja família materna ascendia de Marcelim, mas na altura residia na aldeia de Lagarelhos; o António Luís da aldeia de Casal Matos; a Carla de Vila Viçosa e que residia a escassos metros da escola; o Manuel Alberto que também residia na aldeia de Casal Matos ;o Miguel que era de Vila Viçosa e que também tinha ascendência em Marcelim, local de onde era natural o seu pai.
Na segunda classe andava, na altura, a minha prima Cristina, a Ana Maria - a de Marcelim; a Ana Maria de Vila Viçosa e que era conhecida como a Ana Maria da Pedra – em referencia ao local da aldeia onde morava; a Fernanda, irmã do Miguel e portanto, também ela residente em Vila Viçosa; a Paula de Casal Matos e irmã do Manuel Alberto, atrás referido, penso que na altura também andava na segunda classe.
O professor destes nobres alunos era alguém a quem todos nós devemos um pouco daquilo que hoje somos. Uma pessoa simples, acessível, e acima de tudo compreensível para com os seus alunos. Uma pessoa que gostava de um dia rever, para lhe poder agradecer por tudo o que fez por mim e por muitos daqueles a quem deu aulas. Esse Homem dá pelo nome de Armando. Foi ele, por ter sido também o primeiro, que me ensinou a ler, e a escrever, a realizar operações de subtracção, divisão, etc…
Continua…..
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