sábado, 7 de julho de 2012

Caminhada e brincadeiras


Durante quatro anos, quer estivesse, sol ou chuva, frio ou calor, eu e os meus colegas, fazíamos o percurso entre Marcelim e Vila Viçosa, por entre pedras e tojos, mas sempre com um sorriso e com muita alegria. Imaginávamos como seria tudo muito mais fácil, se existisse uma ponte ou um tapete rolante a ligar as duas aldeias. Fantasias de criança, que preenchiam parte da nossa caminhada e do nosso pensamento. Não sabíamos o que era um computador e muito menos se ouvia falar de internet.
As nossas brincadeiras, eram certamente muito mais saudáveis, apesar de os nomes não serem tão pomposos, como hoje em dia, em que se joga/fala de playstaion, ou Pc. Onde há uma infinidade de jogos tipo PES, Football Manager ou outros. Naquela altura brincávamos com o que o tínhamos. E o que tínhamos era quase sempre o mesmo, mas isso não nos incomodava. Ora jogávamos futebol, ora às escondidas… havia ainda os Cowboys, a apanhadinha, a macaca, os polícias e ladrões…. E que felicidade que estas brincadeiras nos davam. Ninguém era obeso, nem se conhecia essa palavra.
Nas férias, íamos ajudar os nossos pais nos trabalhos do campo. Se fosse hoje diziam que era trabalho infantil. Naquela altura adorávamos e conseguíamos ajudar a produzir o nosso sustento, ainda que o nosso trabalho fosse mínimo. Eu gostava tanto dos trabalhos e de andar a guardar os animais, que me lembro perfeitamente no final da 1ª classe, o meu professor (Prof. Armando), se ter deslocado a casa dos meus pais para lhes pedir autorização para eu frequentar uma colónia deferias na praia. Depois de ele explicar as vantagens que eu teria em participar, eles algo renitentes acabaram por autorizar, mas quando me perguntaram se queria ir, a minha resposta foi. “Prefiro ficar cá para ir com as vacas”.
O campo era o meu habitat natural e preferido e com 6 anos ainda não estava preparado para sair de casa J
Hoje seguramente ninguém teria uma decisão semelhante à minha. Qualquer criança preferiria a praia aos trabalhos do campo.
Na minha aldeia de Marcelim, vivíamos várias crianças… humildes mas felizes.
Talvez tenham sido esses caminhos difíceis que percorremos para nos levar até à escola que nos deram muitos ensinamentos para as nossas vidas actuais. Foi neles que aprendemos que nada se consegue sem dificuldade, foi neles que aprendemos a saber ajudar o outro quando está mais cansado; foi neles que tivemos o inicio da nossa vida de estudo e trabalho.
Hoje em dia frequentemente se fala em crise e em dificuldades, eu sou capaz de afirmar que todos aqueles que percorrem estes ou outros caminhos semelhantes desde tenra idade, hoje tem mais capacidade para encontrar soluções que lhes permitam superar a crise e as dificuldades que se lhe vão deparando.
Quero agradecer a todos os colegas de Marcelim e das outras aldeias, que comigo partilharam as cadeiras da Escola de Vila Viçosa, pelos bons e pelos menos bons momentos que lá passamos, e por aquilo que lá aprendemos….

A escola - o caminho

As aulas da parte da manhã tinham inicio por volta das 8H15. Significa que o percurso de cerca de uma hora por caminhos e carreiros, tinha de começar cerca das 07H15. Implica isso que, crianças de 6/7 anos, como nós, tínhamos que nos levantar ainda antes das 7horas.
Nos dias de hoje diziam que seria maus tratos a crianças. Mas naquela altura, e numa aldeia do interior ninguém sabia o que era isso das Comissões de Protecção de Crianças. E eramos tão felizes.
Cada um de nós ia a casa do outro chamar. Depois juntos chamavamos um terceiro, depois um quarto e assim sucessivamente até estarmos todos. Assim, bem cedinho, e por vezes com temperaturas negativas e chuva/neve, começava a nossa caminhada desde Marcelim até Vila Viçosa. A distancia e o frio eram combatidas com brincadeiras tipicas de crianças. Mas que felizes eramos.
Ao chegarmos a um local denominado "Alvar", já bem proximo da escola, e de onde conseguiamos ver facilmente esta bem como o recreio envolvente, a nossa maior preocupação era descobrir o carro do(a) professor(a) estacionado nas imediações. Caso ainda não estivesse, continuava a brincadeira pelo caminho.
Depois de chegar à escola, nos dias de Inverno era tempo de junto do aquecedor, secar a roupa que eventualmente fosse molhada, aquecer as mãos e trocar as galochas pelas fantasticas pantufas (que se podem ver na foto). mas que felizes que éramos.
Já mais aconchegados, era tempo de trabalhar. Corrigir os trabalhos de casa e aprender coisas novas.
No final do 1º ano o Professor Armando iria comunicar quem transitava e quem não transitava de ano. Tive a felicidade transitar para a 2ª classe. Sim porque na altura era assim que se chamava.
Na 2ª classe iria ter um novo professor. Neste caso uma professora. Seria ela a professora Vitória. Com esta mudança de ano e professor, mudaram também os horários. Deixei de ter aulas no periodo da manha e passei a ter no periodo da tarde.
Assim de manha dava para dormir mais um pouco. Não muito mais, porque sempre havia alguma coisa para fazer no campo e o meu pai não prescindia da minha ajuda. Mas que feliz eu era.

E a história irá continuar....

Obrigado Pai

Vou fazer uma pequena interrupção na narração cronológica, para neste dia do Pai prestar uma homenagem ao meu Pai.
Sei que ele não tem acesso á Internet nem percebe nada de computadores, mas sei que irá ter oportunidade para ler este pequeno texto.
E voltando aos meus cinco anos e á ida para a Escola Primária. Nesta altura saímos pela primeira vez da alçada dos nossos pais e passamos a estar também sob a alçada do(s) professor(es). Altura esta, também, para começar-mos a ouvir os conselhos dos nossos pais, até porque de Marcelim a Vila Viçosa o caminho é longo, e embora se pense que não, os perigos existem.
Claro está que com 5 anos não damos grande, ou mesmo nenhum, interesse a essas recomendações. Queremos é ir para a escola e fazer todas as brincadeiras e asneiras eu nos apetecerem naquele momento, esquecendo as recomendações dos pais.
Vamos crescendo, e vamos ganhando consciência das coisas, daquilo que podemos e devemos fazer, e também daquilo que não podemos nem devemos fazer.
Durante a vida vamos recebendo conselhos, deste, daquele, do outro…. E também, e certamente os melhores, dos nossos pais. Mas até uma certa idade achamos sempre que nós é que estamos certos, e que aqueles “velhos” – os nossos pais – são é uns chatos de todo  o tamanho. Será que não se lembram que já tiveram a nossa idade e também faziam muita coisa mal? Agora alguns anos mais tarde percebo que tinham razão. Por terem sido daquela nossa idade e por terem feito as mesmas coisas que nós é que eles nos diziam o que seria melhor e o que não seria.
Não ainda há muito tempo que o meu pai me dizia: “quem corrige ama”. Achava aquilo ridículo…. Hoje, se calhar porque também já sou pai, digo-lhe que faz o todo o sentido.
Todo o pai que realmente ama o seu filho quer o melhor para ele. E se o corrige, se lhe dá conselhos, se ralha com ele, é porque sabe que ele é capaz de ser e fazer melhor. É porque quer que ele um dia, possa dizer o mesmo que eu: OBRIGADO PAI, pelas palmadas que levei, ou que deixei de levar (sinceramente não me lembro de levar), obrigado pelos raspanetes que ouvi, obrigado pelos conselhos que ouvi, embora ás vezes não estivesse a ouvir. Obrigado por todos aqueles sacrifícios que fizeram para que nada me faltasse.
SIMPLESMENTE OBRIGADO PAI, e espero que um dia o meu pequeno piolho me possa dizer o mesmo.

A escola - parte 1

Aos 5 anos fui para a escola. Sim com 5 anos, pois na altura, ao contrário do que vai acontecendo actualmente, todos aqueles que fizessem 6 anos até 31 de Dezembro podiam entrar para Escola primária nesse ano lectivo.
Na aldeia onde vivia, Marcelim, não tínhamos escola. Depois de vários anos em que os habitantes desta linda aldeia, calcorrearam caminhos tenebrosos, desde Marcelim, até Vila de Muros, eu e outros mais, tivemos a felicidade de poder ir para escola de Vila Viçosa. Digo felicidade, porque além de ser mais perto, os caminhos, apesar de ruins, eram bastante melhores.
Durante vários anos, os habitantes de Marcelim, que pretendiam ir à Escola, tinham de se deslocar para Vila de Muros. Vila de Muros, para aqueles que não conhecem, é uma aldeia da freguesia de Tendais (freguesia a que também pertence a aldeia de Marcelim), situada na Zona Ribeirinha desta mesma freguesia, enquanto Marcelim se situa na zona mais alta.
As deslocações eram feitas em caminhos utilizados para trabalhos agrícolas, e que na altura eram o único meio de comunicação e ligação entre estas aldeias. Estradas, fossem elas em terra batida, ou em alcatrão, eram apenas imaginação dos habitantes. Se de Verão era difícil fazer estes caminhos, devido ao intenso calor, no Inverno era mais complicado, pois os Invernos são muitos rigorosos, com chuva, vento e por vezes neve.
No ano lectivo de 1980/1981, a Anabela Francisco foi a primeira aluna de Marcelim a ir para Escola de Vila Viçosa. No entanto para que isto acontecesse, foi necessário o Senhor Epifânio, pai da Anabela, pedir autorização ao Delegado Escolar para efectuar a matrícula em Vila Viçosa, pois a freguesia era diferente.
Vila Viçosa, pese embora a proximidade com Marcelim, pertence á Freguesia de Cinfães.
Neste ano a Anabela era a única aluna de Marcelim a frequentar a escola de Vila Viçosa, e o percurso casa/escola e escola/casa era feito na companhia do seu irmão Antonino que lhe fazia companhia. De facto uma menina com 6 anos caminhar sozinha pelo meio da serra, não será muito agradável, se bem naquela altura não havia os mesmos problemas de hoje em dia.
Nesta altura havia ainda um grupo de alunos de Marcelim, que fazia o percurso para a Escola de Vila de Muros, e então a Anabela e o Antonino apanhavam “boleia” deles até ao Grandinho.
Grandinho, é uma pequena localidade, onde hoje já não reside ninguém, que fica na fronteira da freguesia de Tendais, com a Freguesia de Cinfães.
A partir do ano lectivo 1980/1981 passaram então os meninos e meninas de Marcelim a frequentar a Escola de Vila Viçosa.
No ano lectivo de 1985/1986 chegou então a minha vez de ir para a Escola. Na altura as aulas na escola de Vila Viçosa estavam dividas em dois períodos distintos. No período da manha, tinham aulas os alunos da 1ª e 2ª classe( actualmente 1º e 2º ano) e da parte de tarde os alunos da 3ª e 4ª classe (actualmente 3º e 4º ano). Nesse ano Marcelim “enviou” para a escola pela primeira vez, eu mesmo e o Paulo, filho da Sra. Maria e do Sr. Américo, já falecido. Transitavam já do ano anterior a minha prima Cristina e a Ana Maria – que já andavam na segunda classe. Além delas praticamente não conhecíamos mais ninguém na escola, mas isso não foi problema, pois na altura não se falava em “bullings” ou coisas do género, e além do mais os restantes colegas, tal como nós, eram filhos de gente humilde, com os mesmos problemas e limitações que nós.
Espero não me esquecer aqui de nenhum deles. Recordo-me que na 1ª classe andava eu, o Paulo, o Horácio, cuja família materna ascendia de Marcelim, mas na altura residia na aldeia de Lagarelhos; o António Luís da aldeia de Casal Matos; a Carla de Vila Viçosa e que residia a escassos metros da escola; o Manuel Alberto que também residia na aldeia de Casal Matos ;o Miguel que era de Vila Viçosa e que também tinha ascendência em Marcelim, local de onde era natural o seu pai.
Na segunda classe andava, na altura, a minha prima Cristina, a Ana Maria -  a de Marcelim; a Ana Maria de Vila Viçosa e que era conhecida como a Ana Maria da Pedra – em referencia ao local da aldeia onde morava; a Fernanda, irmã do Miguel e portanto, também ela residente em Vila Viçosa; a Paula de Casal Matos e irmã do Manuel Alberto, atrás referido, penso que na altura também andava na segunda classe.
O professor destes nobres alunos era alguém a quem todos nós devemos um pouco daquilo que hoje somos. Uma pessoa simples, acessível, e acima de tudo compreensível para com os seus alunos. Uma pessoa que gostava de um dia rever, para lhe poder agradecer por tudo o que fez por mim e por muitos daqueles a quem deu aulas. Esse Homem dá pelo nome de Armando. Foi ele, por ter sido também o primeiro, que me ensinou a ler, e a escrever, a realizar operações de subtracção, divisão, etc…

Continua…..

O Inicio

Hoje em dia, com estas novas tecnologias, qualquer um de nós pode ter um blog, um site, ou o que quer seja, sobre os mais variados assuntos.
Então eu resolvi, criar este blog, onde vou contar a história, ou partes da história da minha vida. Possivelmente, serão poucos que irão ler, ou aqueles que acharão que a mesma não tem interesse nenhum, mas também não pretendo tirar qualquer beneficio disto, apenas pretendo passar algum do meu tempo livre a fazer algo diferente.
É claro que as lembranças dos meus primeiros anos de vida não são muitas, por isso vou começar por aquilo que me recordo.
Segundo os meus pais, e aquilo que consta no registo de nascimento, nasci no dia 09 Dezembro de 1980, por volta das 10 horas, no já extinto Hospital de Cinfães. Era um rapaz bem composto fisicamente, pois pesava mais de três quilos, no entanto não foi um parto fácil, porque não tinha grande vontade de sair (possivelmente estava mais quente dentro do útero materno). Foi tão difícil que queria sair com uma mão agarrada a uma das orelhas (talvez por isso sejam assim tão grandes), mas após alguma luta, as enfermeiras e parteiras lá conseguiram que nascesse. Mas ao chegar ao novo mundo, queriam que eu chorasse, mas não estava para ai virado e fui logo vitima de uma açoitamento tal que tive mesmo de chorar.
Após alguns dias no Hospital e após ganhar uma bela camada de piolhos, lá fui com a minha mãe para a nossa casa, ou melhor, para a casa dos meus avós paternos, pois vivíamos todos juntos.
A partir deste momento, contam que eu não gostava muito de dormir, ao contrário do que acontece actualmente. Segundo os relatos dos meus pais, terei feito com que passassem algumas noites em branco….
O tempo foi passando, como tal fui crescendo. Sendo filho único, a minha prima Cristina, um ano mais velha, tornou-se na minha companheira de muitas aventuras em casa dos nossos avós, ou no quintal, ou mesmo no palheiro, que mais tarde foi transformado na casa de férias do Tio Abílio, onde gostávamos de brincar com um cão magnífico que os meus avós tinham e que se chamava “Patusco”.
Esse cão maravilhoso, que sempre acompanhava o meu avô Vitorino, quando este ia com as vacas e o gado (leia-se - ovelhas e cabras), e que estava sempre pronto a defende-las dos ataques ferozes, dos lobos que naquela altura calcorreavam aqueles montes. Perdem-se de conta as vezes que foi atacado por esses lobos, mas sempre mantinha o seu rebanho seguro. Perdem-se de conta as vezes que, esse animal fantástico, chegou a casa alagado em sangue, mas com o sentido do dever cumprido, pois tinha defendido com unhas e dentes o seu rebanho.
Este rebanho de cabras e ovelhas que sempre acompanhavam as vacas dos meus pais no pasto, fosse ele nos campos ou nos montes, e que ainda hoje assim acontece.
Esse rebanho que eu com cerca de 5/6 anos me habituei a acompanhar e a guardar sempre ensinado e auxiliado pelo meu avô que Deus tem. Na altura com cerca de 80 anos e agarrado a uma bengala o meu avô Vitorino fazia questão de me acompanhar no pastoreio destes animais. Foi com ele que aprendi, que sempre que chegávamos com os animais a algum local deveríamos sempre dar dois ou três gritos em voz alta. Acreditavam eles, que estes gritos poderiam afugentar qualquer lobo, que por ali estivesse á coca da sua presa. Aprendi também que os lobos mais facilmente atacam as ovelhas que as cabras. Isto porque as cabras ao serem atacadas começam ao balir, ao contrário das ovelhas que permanecem “mudas”.
Com 5 anos foi também altura de entrar para escola. Uma nova e diferente etapa na minha vida……